Resenha: O meu Pé de Laranja Lima

Título: O meu Pé de Laranja Lima
Autor: José Mauro de Vasconcelos
Gênero: Literatura Infantil
Literatura: Brasileira
Ano: 2015
Páginas: 190
Editora: Melhoramentos
ISBN: 978.850.606.253-1
Avaliação CL: ⭐️⭐️⭐️⭐️⭐️+❤️

Um dos melhores livros da vida, sim! É tudo isso que dizem e um pouco mais, acredite.

Escrito no século XX, em apenas doze dias, o livro de José Mauro trás uma história um tanto quanto auto biográfica, infantil, tocante, sensível e cheia de sonhos. Narrado por um garoto, o livro é dividido em duas significantes partes, que fazem com que o leitor fique com um sorriso bobo, – entre algumas lágrimas -, do começo ao fim da leitura.

O texto possui muitas características regionais, e típicas dos anos 60. Por exemplo, o fato de a todo instante o menino apanhar e sofrer castigos quando faz algo que a família não aprova, – fato que na atualidade perdeu um pouco a força, apesar de ainda ser o método mais usado na “correção” infantil.

Zezé é um menino do interior do Rio de Janeiro, de Bangu, conhecido como o “o filho do diabo”, de gênio peculiar, apesar de ser muito precoce para com as coisas da vida, de família pobre e com muitas dificuldades.

O garoto possui muitos irmãos, e dentre eles, somente um é mais novo que ele, Luís, ou “reizinho”. O pai está desempregado, por ter idade avançada, a mãe vai para a cidade todos os dias, para conseguir manter a família com o mínimo possível. Os filhos mais velhos são delegadas para cuidar dos mais novos, Lalá, Glória ou Godóia como é chamada, – também a protetora do protagonista -, e Antônio, são os mais crescidos. Totoca, Zezé e Luís são os mais pequeninos.

Quase todos na cidade possuem um apelido, ou um nome nada comum, o que às vezes pode até ser engraçado em meio a tristeza que lemos.

Este não é um livro sobre tristeza, apesar de retratar a vida dos anos 60, onde mulheres mais pobres saiam bem cedo de seus bairros, para irem à fábricas, teares ou àcasa de algum patrão na cidade.

Quando afirmo que Zezé era precoce, é por que ele era mesmo, muito. Aos cinco anos, já sabia o que era a realidade que sua família enfrentava. Aprende a ler sem ninguém ensinar, nem menos ele sabe como aprendeu… Com isso, para a casa ter um pouco de paz, Godóia mente sua idade para 6 anos, e ele entra na escola, apela e recebe a doação do uniforme escolar.

Tio Edmundo é um aposentado, marido de Dandinda. É nesta casa que por vezes o garoto se refugia, mas também que apronta todas. Edmundo lhe ensina os significado das palavras, e Zezé sonha em ser poeta:


“Quero ser poeta, poeta de gravata de laço, igual nos retratos do Tio Edmundo”

*

É chegado o dia em que a família tem que mudar de casa… As crianças escolhem seus quartos, e até mesmo suas árvores. Para Zezé não sobra nada, pelo menos ele pensa que não é grande coisa, um pequeno e singelo pé de laranja lima.

Aos poucos ele se achega e tenta criar intimidade com a planta, enquanto brincava de Jardim Zoológico ou Europa com Luís no quintal.

” – Me diga uma coisa. Todo mundo sabe que você fala?
– Não. Só você.
– Verdade?
– Posso jurar. Uma fada me disse que quando um menininho igualzinho a você ficasse meu amigo, que eu ia falar e ser feliz.”

Então o pequeno pé de laranja lima o conquista, tornando-se seu confidente. É com Xururuca ou Minguinho, como Zezé o chama, que ele passa a maior parte do tempo conversando e falando de seus sonhos de outro mundo.

*

Zezé conhece seu Ariovaldo, um cantor de rua e vendedor de folhetos de músicas, que quase parece um profissional, de tão bom tom que saem suas notas musicais. O persegue por todas as ruas do bairro, somente pelo prazer de ouvi-lo. O cantor percebe, e pergunta o que o garoto quer o perseguindo insistentemente daquele jeito. Zezé diz que quer apenas ouvir sua voz, e que pode ajuda-lo a distribuir os papeis em troca. E assim o faz.

Com o tempo o menino torna-se o amuleto da sorte do cantor, de tantas vendas que fazia. E aos poucos, Zezé vira um canarinho, e eles fazem uma dupla. Tudo isso é claro, sem que seus familiares descubram, pois faltava todas as terças na escola, e os pais não aprovariam.

O filho de seu Paulo era mesmo danado. Sempre tinha resposta e desculpa para tudo, mas quase sempre era pego na mentira, e apanhava.

*

Totoca o ensina a pegar “morcego”, que é pegar carona na parte de trás do carro. Todos os garotos do bairro o faziam, mas ninguém tinha a audácia de encostar perto do carro do seu Portuga, um senhor malvado e de senho fechado, – pelo menos era a assim que o descreviam.

Para seus familiares, no dia de natal, para Zezé não nascia o menino Jesus, e sim o Diabo, Zezé aprontava uma atrás de outra. Até que ousa a pegar morcego no bendito carro do dito cujo. O que não da muito certo, e resulta num quase atropelamento e umas boas palmadas do Português no moleque em público.


A partir desse dia, Zezé passa a odiá-lo mais que tudo, pensa até em mata-lo quando ficar mais velho.

*

Com o passar dos dias, o garoto, por vergonha, decide não passar pela frente do bar Miséria e Fome, onde havia passado o vexame, e todos o viram levar uma coça. Porém em um dia, quando tinha cortado o pé, e mancava muito para ir a escola, – pois não podia ficar em casa, se não apanhava, muito menos dizer que se machucara, se não apanharia em dobro -, seu Portuga passa com seu lindo carro, e oferece carona ao pivete. Zezé é orgulhoso, nega de primeira, mas vendo sua situação, decide aceitar.

Preocupado, seu Manoel Valadares, o portuga, o leva para a farmácia, e o garoto leva três pontos no pé. O senhor insiste que ele volte para casa, e invente uma desculpa.

O Portuga havia sido muito legal com ele… E aos poucos ele desiste de seu pensamento maquiavélico de mata-lo, e torna-se seu amigo.

Zezé via no senhor, a figura de um pai. Terno e carinhoso. Com ele o garoto estava livre das surras. Porém a amizade dos dois era um segredo, tanto por que Zezé não podia sair de casa a toa, quanto pela vergonha que havia passado na frente de todos no passado. Os dois conversavam a beça, e Zezé intercalava-se entre o pé de laranja lima e a casa do senhor, para refugiar-se.

“Tudo que é meu, serás seu um dia.”

*

Malino e inquieto, Zezé decide não jantar, pois quer continuar a construir seu balão, Totoca acabara de lhe ensinar. Jandira não tinha paciência, e lhe ordena que imediatamente vá comer. Fazer o balão era tudo que ele mais queria. E então, o menino diabo sopra em sua mente:

“- Puta, você é uma puta! PU-TA!”

O furdunço começa. Apanha tanto, o sangue escorre, os olhos incham, a força para caminhar quase não existe. E se não fosse por Godóia, ali mesmo morreria.

Não bastasse essa surra, o pai lhe dá outra, após ouvir o menino cantando algo obsceno, para sua idade.

Aquele dia não fora marcado somente no corpo de Zezé, mas também, para sempre em sua mente.

A seguir contém spoiler.

Uma parte do bairro seria destruída em breve, pois uma grande construção havia comprado-o. Totoca para conseguir uns réis emprestado, decide contar uma novidade ao irmão, que curioso como era, logo aceita. O pé de laranja lima e a nova velha casa seriam destruídos, todos iriam se mudar, pois por milagre o pai conseguira um emprego. O garoto não quer acreditar. Minguinho fazia parte de seu mundo particular, era tudo que tinha, tirando o seu Portuga. Fica desnorteado, sem saber como proceder.

Ele sabe por um dos colegas de escola, que o carro de seu Portuga havia sido arrastado pelo trem Mangaratiba. Entra em lapso, e foge da sala de aula para ir ao encontro de seu amigo.

Não há nada que ele possa fazer, a não ser guardar as boas lembranças que tiveram.

“A partir de hoje, vou lhe tratar como se fosse meu filhinho.”

Zezé decide que quer morrer também, fica traumatizado, e passa algum tempo numa cama, rodeado de pessoas que antes não lhe queriam o bem.

O pé de laranja lima não era apenas uma árvore, ou o mundo de faz de conta do garoto, simbolizava tudo na vida dele, o amor e o seu Portuga.

Passam-se muitos anos, e Zezé já está com seus quarenta e poucos anos. E deixa um recado a Portuga, seu fiel e inseparável amigo, com quem aprendera o real significado do amor.

 

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