Resenha: O Diário de Anne Frank

Título: O Diário de Anne Frank
Original: Het Achterhuis, Dagboekbrieven
Autor: Anne Frank
Gênero: Biografia / Epístola
Literatura: Alemã
Ano: 2014
Páginas: 416
Editora: Record
ISBN: 978.850.106.820-0
Avaliação CL: ⭐️⭐️⭐️⭐️⭐️+❤️

Um clássico é um clássico!

A edição da Record é bem completa. Possui fotos, pré e posfácio, e com linhas de rodapé que auxiliam o leitor, e claro, é uma edição linda almofadada – é uma réplica do diário verdadeiro.

Nas primeiras páginas, somos introduzidos a história de Anne Frank. A garota já escrevia há um tempo, mas depois de ouvir em uma rádio que textos de pessoas que sofreram com o holocausto poderiam ser publicados posteriormente a guerra, ela revisa e algumas vezes acrescenta comentários em suas folhas. Ela sonhava em ser jornalista, e aos 13 anos, já escrevia como gente grande.

Seu pai, Otto Frank, em 1989 revelou ao mundo os escritos da filha, fazendo o que ela mais queria da vida: ser lembrada.

Geralmente livros sobre Guerras ou Pós Guerras são muito tristes e comoventes, o no diário de Anne Frank veremos tudo isso, mas não somente pelo simples fato do conflito, mas por ela ser uma garota incompreendida.

*

Após Margot, irmã mais velha de Anne, receber uma carta notificando que a menina deveria se apresentar ao campo de concentração nazista, a família decide fugir da Alemanha para a Holanda, onde Otto possuía um escritório que poderia abrigá-los.

Anne é excêntrica, exótica e de pensamento crítico, até mesmo na escola. Não possuía muitos amigos, mas os poucos que tinha a faziam feliz.

O esconderijo é nomeado “Anexo Secreto”, e com mais quatro pessoas, uma outra diferente família e um senhor mal humorado, os oito passam a viver atrás de uma estante, que dá acesso a moradia.

Durante um pouco mais de dois anos, entre 1942 e 1944, Anne Frank e os demais limitam-se à comida escassa, pouca luz do dia e nada de ar puro.

“Fizeram questão de lembrar que somos judeus acorrentados, acorrentados num lugar, sem qualquer direito, mas com mil deveres. Devemos colocar os sentimentos de lado; devemos ser corajosos e fortes, suportar o desconforto sem reclamar, fazer o máximo possível e confiar em Deus. Algum dia essa guerra terrível vai terminar. Chegará a hora em que seremos gente de novo, e não somente judeus!”

Por mais que a situação fosse difícil, a pequena sonhadora tentara levar seus dias com o maior ânimo possível, mas aos poucos suas forças se esgotam.

Na maior parte de seu diário, Anne não retrata a vida de uma judia escondida e suas consequências, até fala sobre isso, mas a vida de uma garota que não ama a mãe, e é considerada uma ovelha negra, é o que chama mais atenção e o que ela evidencia.

Nunca saberemos o por quê e se realmente tudo era verídico, pois somente lemos o ponto de vista de uma pessoa… Mas aos poucos descobrimos que Anne Frank era como uma solitária nas trevas, que buscava a todo custo afeto.

“Vejo nós oito, no Anexo, como se fôssemos um retalho de céu azul rodeado por nuvens negras ameaçadoras. O trecho perfeitamente redondo onde estamos ainda é seguro, mas as nuvens se aproxima, e o círculo entre nós e o perigo que se aproxima está se apertando cada vez mais. Estamos rodeados por escuridão e perigo, e, em nossa busca desesperada por uma saída, vivemos nos chocando uns contra os outros. Olhamos as lutas lá embaixo e a paz e a beleza lá em cima. Enquanto isso, somos cortados pela massa de nuvens, de modo que não podemos subir nem descer. Ela paira diante de nós como uma parede impenetrável, tentando nos esmagar, mas ainda sem conseguir. Só posso chorar e pedir: “Ah, círculo, abra e nos deixe sair!””

Este livro pode abordar inúmeros temas, porém o principal é: relacionamento. Pessoas em conflitos, o não ouvir e falar, as brigas minúsculas que faziam com que parte do grupo não se falasse por um bom tempo. Tudo estava elevado ao máximo grau, e a sensibilidade da garota não era percebida.

“Meus nervos costumam me dominar, principalmente aos domingos; é quando me sinto péssima. A atmosfera é chocante e pesada como chumbo. Lá fora não se ouve um pássaro, e um silêncio mortal e opressivo paira sobre a casa e se gruda em mim, como se fosse me arrastar para as regiões mais profundas dos abismos subterrâneos. Em tempos assim, papai, mamãe e Margot, não têm a menor importância parta mim. Ando de cômodo em cômodo, subo e desço escadas e me sinto um pássaro de asas cortadas, que fica se atirando contra as barras da gaiola. “me deixem sair para onde existem ar puro e risos!”, grita uma voz dentro de mim. Nem mesmo me incomodo mais em responder, só fico deitada no divã. O sono faz o silêncio e o medo terrível se irem embora mais depressa, ajuda a passar o tempo, já que é impossível matá-lo.”

Mesmo após pensar estar apaixonada por Peter, o filho do outro casal, Anne desiste dele, pois não quer alguém escorado em si apenas como um alicerce, queria alguém pura e verdadeiramente de coração, que se abrisse e partilhasse de tudo. E Peter não seria assim, nunca.

Anne não gostava da mãe, e não possui nenhum ser maternal para chamar de seu. A mente precoce já era uma feminista nata. Abordava e questionava as diferenças entre homens e mulheres e não entendia o por quê de tanta injustiça.

“As mulheres, seres que sofrem e suportam a dor para garantir a continuação de toda a raça humana, seriam muito mais corajosas do que todos aqueles heróis falastrões lutadores pela liberdade postos juntos.”

Ela não queria ser como a mãe, uma simples dona de casa sem conhecimento de mundo. Queria ir além, sonhava em ser jornalista, e estudava mil assuntos diferentes simultaneamente.

“A única maneira de afastar o pensamento é estudar, e ultimamente estou estudando muito.”

Anne nos poupou e muito do que realmente sentia, somente em seus últimos dias relatou como estava sua mente e coração. Parecia que sabia o que estaria prestes a acontecer…

“Eu poderia passar horas contando a você o sofrimento trazido pela guerra, mas só ficaria ainda mais infeliz. Só podemos esperar, com toda a calma possível, que ela acabe. Judeus e cristãos esperam, o mundo inteiro espera, e muitos esperam a morte.”

Ela e a irmã foram levadas à um campo de concentração. Passaram fome e frio, não resistem, e após contraírem tifo – uma doença infectológica epidêmica na época – , acabam morrendo.

“Estou tomando valeriana todos os dias pra controlar a ansiedade e a depressão, mas isso não impede que me sinta ainda mais infeliz no dia seguinte. Uma boa gargalhada ajudaria mais do que dez gotas de valeriana, mas quase esquecemos aqui como se gargalha. Às vezes, tenho medo de que meu rosto fique flácido com toda essa tristeza e que minha boca fique caída para sempre nos cantos. Os outro não estão em situação melhor. Todo mundo anda apavorado com o grande terror conhecido como inverno.”

Um livro lindo, por completo. Que faz com que o leitor sinta, independentemente do sentimento, apenas sinta junto com Anne Frank.

Ela conseguiu seu grande propósito, não veio a este mundo a toa, deixou sua história, seu legado. Não da maneira que gostaria, mas para sempre será lembrada.

“Para mim, é praticamente impossível construir a vida sobre um alicerce de caos, sofrimento e morte. Vejo o mundo ser transformando aos poucos numa selva, ouço o trovão que se aproxima e que, um dia irá nos destruir também, sinto o sofrimento de milhões. E, mesmo assim, quando olho para o céu, sinto de algum modo que tudo mudará para melhor, que a crueldade também terminará, que a paz e a tranquilidade voltarão. Enquanto isso, devo me agarrar aos meus ideais. Talvez chegue o dia em que eu possa realizá-los!”

Se você leu ou pretende ler está história, também recomendo que leia “Contos do Esconderijo”, também de Anne Frank. Nele é possível confirmar o talento que possuía e associar à vida da garota.

Outros quotes importantes:

“Até agora só contei meus pensamentos ao meu diário. Ainda não consegui escrever esquetes engraçados que mais tarde pudesse ler em voz alta. No futuro, vou dedicar menos tempos ao sentimentalismo e mais tempo à realidade.”

“Não quero fazer com que isso pareça bobagem; é trágico demais. À noite, quando está escuro, costumo ver longas filas de gente boa e inocente com crianças chorando, andando sem parar, controladas por um punhado de homens que as empurram e batem até que ela caírem. Ninguém é poupado. Os doentes, os velhos, as crianças, os bebês e as mulheres grávidas – todos são forçados a marchar em direção à morte.”

“Hoje à noite, os canhões atiraram tanto que tive de juntar meus pertences quatro vezes. Hoje enchi uma mala com as coisas de que vou precisar caso tenha de fugir, mas, como mamãe observou: “Para onde você iria?””

“Cheguei a ponto de nem me importar se vivo ou se morro. O mundo vai continuar girando sem mim, e não posso fazer nada para mudar os acontecimentos. Vou deixar que as coisas sigam seu rumo e me concentrar no estudo e na esperança de que tudo acebe bem.”

“Eu me perguntei várias vezes se não teria sido melhor não termos nos escondidos, se estivéssemos mortos agora e não tivéssemos de passar por toda essa desgraça, especialmente para que outros fossem poupados desse fardo. Mas nos encolhemos só de pensar. Ainda amamos a vida, ainda não esquecemos a voz da natureza e continuamos com esperança de… tudo.”

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