Resenha: Ele Não É Isso

Título: Ele Não É Isso
Autor: Rodrigo Moreira
Gênero: Ficção
Literatura: Brasileira
Ano: 2016
Páginas: 271
Editora: Arwen
ISBN: 978.856.825.535-1
Avaliação CL: ⭐️⭐️⭐️⭐️⭐️

Estava ansiosa tanto para ler esta obra quanto para comenta-la agora.

Tendo uma capa peculiar, com um garoto e marcas de sangue, já alertam ao leitor de que muitos arrepios virão! – E isso se confirma a cada página virada.

O livro é narrado pela personagem principal, Matias. Porém, ao longo do livro são citados flashbacks e alguns relatos aparentemente desconexos com a história, o que nos anseia para descobrir o fim.

Nas primeiras páginas, no “prólogo”, alguns doutores relatam suas experiências e dias de vidas ao tentarem detectar o que seriam os monstros que atacam cidades, e devoram pessoas. Os denominados “issos”, próprios seres humanos.

Logo depois, entramos no contexto central. Matias detalha sua infância difícil, perdendo sua mãe em um trágico acidente, e tendo que viver com a tia, que não se importa nem um pouco com o garoto, o que o deixa vulnerável para feitios do marido dela, Raimundo.

“Puta que pariu! Acho que a cabeça dela explodiu inteira. Deve ter ficado igual a uma melancia espatifada no chão.”

Sim! O primeiro trecho do capítulo é esse. E uma mistura de desejo e repulsa faz com que a leitura não pare mais até a última palavra!

Matias é órfão de parentes, e esposa. Ele só pode contar com a vizinha, a quem ele é inquilino. Dona Celina, já uma senhora, faz de tudo para que Matias, e o filho, se sintam como parte da família e acolhidos por ela. Fato este que é reciproco, pois Matias somente tem a ela para recorrer.

Após conseguir um emprego, todos os dias ele vai para o trabalho, e deixa a criança com a senhora. Ela é como uma mãe para ele, e a quem lhe confia muito.

Os capítulos descrevem como era a vida de Matias como criança, seus traumas e medos, e até quando ele conhece a mãe de seu filho Junior.

Felícia e Matias namoravam quando mais jovens. Porém, nem sempre o rapaz foi “só amores” nesse relacionamento. Matias era um rapaz ruim, desfazia-se de Felícia, desprezava-a, e até mesmo após descobrir que ela estava grávida, a abandona.

A garota, que vinha de família religiosa, é expulsa de casa, obrigada a refugiar-se na casa da caridosa tia.

Matias aos poucos descobre que não é essa pessoa que ele quer ser para seu filho: Crescer sem família e sem alguém que o diga o quão importante é tê-lo. Arrepende-se e procura Felícia as pressas. Ele tem claros objetivos: quer casar, sair daquele bairro e cuidar de sua família.

A garota aceita, e eles se mudam.

Passa-se algum tempo, e a garota, com mente de mulher, carrega dentro de si um bebê prestes a nascer.

*

O cenário é a estação da Sé, centro de São Paulo. O casal caminha de mãos dadas, felizes e a caminho da entrada do metrô. Até que são surpreendidos por um cão furioso que acaba por morder a perna de Felícia. Há muito sangue, e a ferida é exposta. Entretanto ela confirma estar bem, e mesmo aos tropeços, os dois voltam para casa.

Sem dar muita importância, passam-se dias, e a ferida é tratada somente a modo caseiro.

*

Aos poucos descobrimos a história… Entre os dèjá vu’s de Matias.

Júnior, ainda quase um bebê de colo, queima em febre constantemente, fazendo com que Matias tenha que sair ou faltar ao trabalho. Dona Celina insiste em cuidar disso para que o rapaz não se prejudique, porém o instinto de pai prevalece.

O garoto delira, se contorce e os médicos não são capazes de descobrir o que ele tem. Nem ao menos um exame é solicitado, pois é mais fácil dizer: “pai, ele está com uma virose que provavelmente o infectou por uma bactéria do ar”. Esta é a grande sacada e crítica do autor para com a cidade de São Paulo, arrisco a dizer que para com o Brasil inteiro! A saúde pública é uma calamidade: super lotações, médicos desmotivados, e o mais graves, vidas são perdidas desenfreadamente sem mais nem menos, por um sistema e governo que não olham além dos seus.

*

As idas ao hospital são frequentes, Matias implora para que a Drª Luiza o ajude, mas ela garante já ter feito de tudo, – a fala politicamente correta.

O estado de Júnior é cada vez pior. O garota se morde, ou se excita quando sente o cheiro de sangue ou carne. Já não é mais uma criança indefesa, se torna um peso para Matias, que já não trabalha, pois o filho o toma cem por cento de sua atenção.

Um vizinho curioso, Romeu, advogado, está sempre por perto. Famoso por ser usuário assumido de cocaína, está a perturbar Matias e Dona Celina como pode.

*

A situação é desoladora. Matias há dias não toma banho, delira por falta de descanso, até mesmo vê a falecida esposa, a casa está destruída, e Júnior cada vez mais inexplicável: possui punhados de cabelos que lhe faltam na cabeça, no chão, em meio a feridas e mal cheiro.

Dona Celina até tenta ajudar, mas o caso não passa mais apenas de boa conversa, e sim, para caso de polícia. Ela definitivamente quer a guarda do garoto, para o bem dela, de Júnior, e principalmente de Matias, agora um zumbi ou morto vivo.

*

Sem sucesso, Dona Celina não consegue nenhum acordo com Matias a respeito da guarda do menino, ao invés disso, amarra a senhora e a deixa por inúmeros dias trancada.

Júnior está no quarto. Possui alguns ossos fora do lugar, e muitas feridas que ele próprio as fez. Romeu acaba sendo trancafiado junto com o garoto, ao tentar adentrar a casa. E ali, naquele quarto fechado, Júnior ataca ferozmente Romeu, e crava seus dentes na perna do homem, sem chances para reação. Matias sabe que não há chances para seu filho, mas mesmo assim, deixa que a luta prossiga.

Como esperado, o não mais bebê, mas sim um ser indecifrável, um “isso”, falece. Ao ver o cadáver destroçado, Matias chora – ele que já não age mais por sim, que já não pertence a esse mundo, decide então sair… Simplesmente sair, fugir de tudo que passou.

*

– A seguir contém spoiler.

Aquela simples mordida de um cachorro em Felícia, até então inofensiva, transmitiu o vírus do gênero Lyssavirus, mais conhecido como raiva para ela e o filho, e posteriormente à massa. E isso na humanidade é uma catástrofe total que caminha para a destruição desenfreada da civilização.

Lembram-se da Drª Luiza, aquela negou-se a ajudar um pai desesperado? Pois bem, agora ela está grávida, em meio ao caos que o mundo enfrenta.

O mundo é isso mesmo… Sem palavras para mais elogios à essa obra. É simplesmente brilhante! Atrás da ficção, retrata a nossa sociedade atual, infelizmente. Ele não é isso é um retrato do valor que tem-se dado hoje ao “estar ou não vivo”, pois alguns já possuem suas almas mortas.

 

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